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Sonetos

Estes são sonetos que eu escrevi. Nem todos estão aqui; estes são só aqueles que eu achei bons o suficiente para compartilhar. Alguns vêm com uma seção de "contexto" com explicações que eu achei benéficas à compreensão do soneto.


Contexto Eu escrevi este soneto para a página de agradecimentos da monografia do meu TCC, que no entanto nunca foi publicado porque eu optei pelo formato de artigo, que não tem essa página.

Ao meu orientador muito agradeço
(Orgulho da ciência e da cultura),
Que me ajudou nesta tarefa dura
E tanto me ensinou desde o começo.

Aos meus pais dou eterno e grande apreço
Pelo exemplo de amor e de ternura,
Respondendo aspereza com brandura,
Às vezes muito mais do que eu mereço.

Aquele chamo, enfim, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo;
Sem Ele fora inútil todo esmero,

E todo o meu trabalho, tosco e rudo;
Nem fora o meu esforço tão sincero,
E bem menor o alcance deste estudo.

***

Dirá Napoleão: “Eu, corso rude,
Fui grande imperador de toda a França;
César, porém, divino estado alcança,
E eu nunca alcancei tanta virtude”.

César dirá: “Venci, sim, amiúde,
Mas Alexandre tinha por usança
Ser do mundo senhor, de espada e lança,
E eu só de Roma ser senhor não pude”.

Alexandre, por fim, com ar sereno,
Dirá: “Fui o primeiro, sem segundo,
Que conquistei todo o solar terreno.

Senti, pois, um pesar grave e profundo
E lamentei o mundo ser pequeno
Para vaidade tão maior que um mundo”.

***

No céu existe uma imortal cidade,
Êmula ao mundo e aos tempos soberanos,
Que pode não temer da morte os danos,
Nem as armas cruéis da antiguidade.

É torpe nela a própria eternidade,
E as leis do esquecimento, vis enganos;
O fado, sem poder; sem força, os anos;
Nem o tédio prolonga a breve idade.

Ulisses arrasou de Troia os muros
Com um cavalo de pau e tosca espada,
Pelo louvor dos séculos futuros.

Cartago foi império, agora é nada;
Mas os portões do céu estão seguros
Contra assaltos de toda mão armada.

***

O dogma da Santíssima Trindade
Nos diz, de modo claro e cristalino,
Que três pessoas, num só ser divino,
Representam a única verdade.

Porém esse pendor da divindade
É causa de profundo desatino:
Se é uno, como pode, então, ser trino?
Se é trino, então, o que Lhes dá unidade?

A humana fantasia é vaso estreito:
Nela não se permite que se acabe
A mais pálida cor desse conceito.

Como um só Deus pode ser três? Não se sabe;
Que juízo tão alto e tão perfeito,
Em mente tão pequena, enfim, não cabe.

***

Para salvar os homens, Se fez homem
Aquele cuja mãe do céu concebe;
E a Sua alta presença se percebe
Onde, por Ele, dois fiéis assomem.

Quando o santo alimento então consomem,
Cada qual o Seu corpo em si recebe:
Um, no copo de vinho, sangue bebe;
Outros, no pão de trigo, carne comem.

Ó Cristo, triunfante na desgraça,
Sobre a morte, ao morrer, destes vitória
E redenção à pecadora raça.

Quando o fazemos em Vossa memória,
Nosso único dever é dar-Vos graça;
Nosso único prazer é dar-Vos glória.

***

Contexto Eu escrevi este soneto como uma paródia humorística do Último flor do Lácio, de Olavo Bilac. O original pode ser lido aqui.

Última cor da bosta, meio amarela,
És, a um tempo, excremento e amargura:
Milho cozido, que, na merda pura,
Reluz como ouro entre os pedaços dela...

Cago-te assim, amolecida e escura,
Peixe de outra estação, podre costela,
Que tens o vil e o sujo da remela
E o fedor do catarro e da gordura!

Cago o teu lixo torpe e o teu aroma
De alho vencido e de jiló amargo!
Cago-te, ó rude e malcheirosa goma,

Onde, n’água do vaso, vi meu milho,
Quando senti, com nojo mais que largo,
O cheiro de fritura e o odor de milho!


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